O senhor entrevistou quase todas as personalidades do Brasil. Quem o senhor gostaria de ter entrevistado e não entrevistou?
- Eu vou contar o meu fracasso. Repórter gosta muito de contar glórias. Eu conto quando me perguntam, mas também gosto de contar meus fracassos. Em 1952, estava em Paris com o Samuel Wainer projetando o semanário Flan, que iríamos lançar aqui. Então, li no jornal que o Hemingway estava em Paris e que toda manhã ele ficava em um bistrozinho, de 9h a 11h, mas me fiz de desentendido. Quando encontrei o Samuel no hotel dele, ele perguntou se eu sabia que o Hemingway estava em Paris e me mandou fazer entrevista com ele. Cheguei às 8h e comecei a beber para tomar coragem: ''O que é que eu vou perguntar a Ernest Hemingway?''. Um vago repórter do Brasil, entrevistar essa sumidade internacional... E fui bebendo para me encorajar. Então, como ele gostava muito de safári, pensei em perguntar se ele já tinha imaginado fazer um safári na Amazônia. Eu vi o homem lá, lendo um jornal que, se não me engano, era de corrida de cavalo. Então tomei o último conhaque, fui ao banheiro, e, quando voltei, o homem tinha ido embora. Mas eu não podia dizer ao Samuel que havia fracassado. Fui para o hotel e disse: ''Samuel você é o sujeito mais mal informado que já vi na minha vida. Hemingway foi embora há três dias, Samuel, ele já está na Espanha. Você me deixa plantado lá naquele cafezinho chato pra nada!''. Olha, mesmo que o Hemingway tivesse me dado uma bofetada, seria um assunto: ''Eu levei uma bofetada de Hemingway''. Esse foi o meu grande fracasso.
Paulo Celso Pereira
Especial para o JB
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